Exposição "complexo brasil", Fundação Calouste Gulbenkian. © Ricardo Lopes
Exposição "complexo brasil", Fundação Calouste Gulbenkian. © Ricardo Lopes
Laboratório de Confluências foi uma performance elaborada especialmente para a exposição complexo brasil, na Fundação Calouste Gulbenkian. Segue texto curatorial de Maria Giulia Pinheiro, publicado originalmente na folha de sala.
Laboratório de Confluências
“Não tenho dúvida de que a confluência é a energia que está nos movendo para o compartilhamento, para o reconhecimento, para o respeito. Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio, ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios, ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente - a gente rende. A confluência é uma força que rende, que aumenta, que amplia. Essa é a medida.”
(Bispo, 2023, p. 14)
Convidar artistas cujos trabalhos acompanho e admiro para dialogar com a explosição complexo brasil e, a partir desse encontro de linguagens, de obras e de discursos múltiplos, investigar o que pode emergir. Esta foi a proposta apresentada à Fundação Gulbenkian e à curadoria da exposição e corajosamente aceite por ambas: confiar no encontro e no que acontece quando artistas e artes se aproximam para trocar.
Dessa ousadia, nasce a primeira performance pública do Laboratório de Confluências, em que eu, Maria Giulia Pinheiro, junto de Gaya de Medeiros, Joyce Souza, Keli Freitas, Okan Kayma e Tales Frey, apresentamos seis performances distintas, articuladas por uma ação contínua que serve como fio condutor do percurso do público. O espaço expositivo da Galeria Principal torna-se cenário e dispositivo das ações, ativado pelas presenças e pelos deslocamentos de cada artista.
Convidamos o público a experimentar o complexo brasil em outra camada: uma presença construída a partir das perspectivas de artistas migrantes brasileiros que situam suas práticas no entre — entre países e entre linguagens — e que, nesse intervalo, repensam formas de olhar e escutar o que a exposição convoca.
Maria Giulia Pinheiro
Concepção, curadoria e dramaturgia
SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.
Levada por Stheryotypa, de Joyce Souza
Segundo Chimamanda Adichie, “O problema dos estereótipos não é que sejam falsos, mas que sejam incompletos.” Stheryotypa (com 2 y) é a persona de Joyce Souza que irá conduzir o público a uma visita incompleta na exposição.
Ecos Mucugê, de Okan Kayma
Performance Sonora que une música e participação do público para celebrar raízes afro-indígenas.
Licencinha, de Gaya de Medeiros
Uma cadeira vazia numa foto do quadro "A primeira missa no Brasil" de Victor Meirelles despoleta uma reflexão sobre a invisibilidade e sobre o "Brasil médio": que não brilha, não canta, não aparece, mas está sempre lá.
Antropofagia Poética, de Maria Giulia Pinheiro
A artista realiza duas intervenções performativas utilizando a técnica da blackout poetry. As ações incidem sobre documentos históricos que, ao mesmo tempo, fundam e preservam as dinâmicas de poder no Brasil. Dessas ações nasce um poema, que busca tensionar e abrir espaços para outras possibilidades narrativas e estéticas. A primeira intervenção, realizada em 13/12/2025, incide sobre o Tratado de Paz, Amizade e Aliança, de 29 de agosto de 1825, que reconhece a independência do Brasil por Portugal. A segunda, a ser realizada em 17/01/2026, incide sobre o Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889, que proclama a República. A obra articula-se a partir do conceito de antropofagia cultural, em diálogo com a verbivocovisualidade de Haroldo e Augusto de Campos.
TutuFruFru, de Tales Frey
O artista mergulha em um volume expansivo de tutus de tule preto, oscilando entre ocultação e breves revelações de fragmentos corporais. Nessa aparição instável, o corpo torna-se impreciso e seus marcadores de gênero se desfazem, abrindo espaço para outras leituras possíveis. O trabalho dialoga com os Parangolés de Hélio Oiticica e com os vestíveis-sensoriais de Lygia Clark e Lygia Pape, criando uma experiência em que corpo, gesto e matéria se transformam mutuamente.
Imigrante sobre tela, de Keli Freitas
Breviário linguístico acompanhado de batatas ao murro e pedras de calçada.
Laboratório de Confluências
Programa complementar da exposição “complexo brasil”
Fundação Calouste Gulbenkian
Lisboa, Portugal, 2026
Programa complementar da exposição “complexo brasil”, com curadoria de José Miguel Wisnik; Guilherme Wisnik; Milena Britto.
Fundação Calouste Gulbenkian
Lisboa, Portugal, 2025/2026
Leia mais na entrevista feita por Marisa Mendes Rodrigues no projeto BANTU na Gulbenkian: