Aqui nossos mediadores convidados escrevem sobre os dias no Festival DUO - Poesia e Performance. Confira abaixo:
Dia 6 - 11/07_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Um Amanhã Possível
Saber-nos no centro de algo maior, capaz de mover as engrenagens a contrapelo de um som ensurdecedor que oprime. Palco de inúmeras vozes, tantas delas procurando ainda a sua própria voz. Saber-nos como um corpo entre corpos, como um sonho entre tantos outros que almejam lançar palavras nunca ao acaso, ainda que o acaso lhes pertença. Palavras por vezes acutilantes rasgando a meio os dias, coabitando com versos que resgatam qualquer coração entorpecido da monotonia das infindáveis horas que teimam em pesar.
Nas palavras da poeta Gisela Casimiro, o bom festival existe. Ei-lo nas mãos de quem procura ver o outro nunca como o Outro, mas sim como seu Igual. É então uma horizontalidade que semeia no coração de quem se acha presente um caminho possível. É talvez este o grande feito destas mãos que lavram caminho sem cessar, nunca baixando os braços ainda que os muros se apresentem tantas vezes como intransponíveis: criar um caminho possível em quem sempre se achou sozinho. Esse caminho possível que aparece ainda antes de soar uma palavra amiga ou um verso que seja. É a possibilidade de olhar lá ao alto, erguer a voz e inteirar-se que a sua frágil condição humana é comungada mesmo por aqueles que desbravam caminho sem aparentemente sangrar. Não há, aliás, a tentativa de esconder as nódoas que denunciam a dura caminhada que é a vida. Não há a tentativa de se recolher na tradução dos interstícios que a olho nu muitas vezes nos escapam. Não há o medo de se compreender como mais uma peça entre tantas outras, enquanto se compreende que nesse mesmo lugar se habita um lugar único.
Pudesse a viagem pelo Festival Duo ser eternizada na voz do poeta que toma a guitarra e a voz como o farol dos dias esquecidos e enevoados ou na voz da poeta que canta sob a sua ancestralidade, povoando línguas várias, encontrando-lhes chão comum para nos levar a esse sítio misterioso de onde partem as lágrimas. Pudesse a viagem pelo Festival Duo ser eternizada nas vozes dos poetas e das poetas que, ainda com as mãos trémulas, enfrentam o seu próprio rosto, oferecendo-o a ouvidos que também eles o desconhecem. Pudesse a viagem pelo Festival Duo ser eternizada em tudo isto, porque o é. É eternizada nas pessoas que por ele passam, ainda que de forma breve, partindo depois para o mundo de agitadas marés e inesperadas curvas cheias de mistério. Levam consigo um manual de sobrevivência e um olhar recriado, de palavras novas e mundos por descobrir.
Neste palco de todo o mundo, há algo que perdura após as últimas palavras ecoarem, é um silêncio que não queremos que termine, pois é um silêncio no qual reverbera um abraço, uma mão que se estende. É uma pequena chama constante, alumiando o que achávamos já perdido.
O Duo Festival é capaz de acolher tudo e o seu contrário, capaz de escutar vozes dissonantes e ainda assim compreender a variedade de olhares sob um mundo tão diverso, capaz de acolher o voo frágil e desejado, capaz de se dizer de todo o
mundo e realmente sê-lo, pois entre criar um caminho possível e materializa-lo a distância é muito maior do que qualquer poema. Ainda assim os versos teimam em encurtar a distância entre nós, entre tu e eu, tornando-nos mais próximos do grande sonho coletivo que é o ser humano. Tornando-nos mais próximos do grande sonho que é o de ser-se poeta. Eis então o resultados das mãos incansavelmente laboriosas: o de quem dorme com os olhos abertos para o amanhã, sabendo-o como frutífera possibilidade de encontro e de fala. É destas bússolas das quais precisamos em nossas mãos. Ainda que irregular seja o caminho, há sempre um amanhã possível.
No silêncio após a grande investida
Permanece a centelha
Capaz de resgatar o sonho por inteiro.
Acílio Gala,
homem de vários nomes devido à estranheza do seu a ouvidos alheios. Nos dias bons, é poeta, nos restantes é professor de português. Acredita que a poesia, seja ela boa ou má, ainda pode salvar o mundo.
Dia 5 - 04/07_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Dia 4 - 27/06_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Revolução Poetoterapêutica
Toda a revolução começa em silêncio, muito antes de ganhar nome.
Há cerca de doze mil anos, o ser humano do período neolítico aprendia a plantar sementes. Com o fim da era glacial, o degelo, o aumento da temperatura, a fertilidade dos solos e a expansão das florestas, o vivente transitava de caçador nómada para sedentário, tornando-se mais doméstico e, por consequência, mais social. É desse movimento que germinaram as primeiras civilizações.
Mas o que tem a ver a Revolução Neolítica com a poetoterapêutica?
Depois da tarde em que fui mediador no DUO Festival, procurava uma palavra que pudesse dar forma à minha experiência naquela que foi a penúltima edição da batalha de palavras ditas na Biblioteca de Alcântara. Por se tratar de poesia e, talvez, por eu ser estudante de psicanálise, a intuição trouxe-me a palavra poetoterapia.
Durante alguns instantes, deixei-me iludir pela ideia de ter criado um neologismo. Porém, uma breve investigação foi suficiente para aprender que, afinal, a palavra já existia.
É curioso. Se voltarmos à Revolução Agrícola, percebemos que a agricultura emergiu, de forma independente, em diferentes geografias. Não foi um único povo que a inventou. Foram diferentes comunidades que reconheceram, em tempos próximos, uma possibilidade que a terra lhes oferecia e, dependendo da região, arroz, cevada, milho ou trigo passaram a compor paisagens agrícolas que, ainda hoje, sustentam grande parte da nossa alimentação.
Com as ideias acontece algo semelhante. Um conceito pode surgir em várias mentes, não necessariamente ao mesmo tempo, mas quando as condições para o seu brotar estão reunidas.
As ideias também têm o seu clima, as suas estações, a sua fertilidade.
Quando esse tempo chega, deixam de pertencer a uma única pessoa e começam a florescer em diferentes consciências, cada uma a partir da sua própria experiência do mundo.
A investigação levou-me a descobrir que a palavra poetoterapia já circulava há vários anos. Aprendi que outras mãos já lavravam este mesmo campo — Lázaro Ramòn, por exemplo, que há mais de uma década partilha gratuitamente, em plataformas digitais, narrativas poéticas, meditações guiadas, exercícios de respiração e outras ferramentas de cuidado emocional.
A descoberta não anulou a minha intuição. Pelo contrário, confirmou-a. Tal como a agricultura surgiu em diferentes geografias, também esta ideia parece ter germinado em diferentes consciências.
No DUO Festival tive a impressão de assistir ao mesmo fenómeno. As sementes tinham voz.
Foi isso que encontrei na performance Resistir é sambar na cara do cansaço e da tragédia, de Felipe Castro. Felipe leva-nos numa viagem às memórias da infância. Aos oito anos queria dançar, mas o pai impedia-o: «Um homem não dança desse jeito.» A história é dele, mas dificilmente lhe pertence apenas a ele. É uma memória que reconhecemos como nossa, uma memória coletivamente queer. A coragem de Felipe não esteve apenas em contá-la, mas em cultivá-la até que deixasse de ser uma ferida sua e se tornasse um território comum, um monólogo onde muitos de nós nos pudemos reconhecer.
Em Shoot Me Down, de Margarida Azevedo e Ricardo Leiria, a dança começa pela voz. Camadas de vozes, ecos que desenham fronteiras invisíveis enquanto a pele se transforma no mapa de espaços interditos. Surge um corpo que aprendeu a afastar-se de si depois de ter sido manipulado e tocado sem consentimento. Um corpo onde cada cicatriz possui a sua própria geografia.
Dessa geografia de cicatrizes nasceram frases que ficaram no ar, como sementes duras que ainda procuram terreno.
«Violação não é sexo.»
«Não é não, porque não, não é sim.»
Terminada a apresentação do duo, o microfone permaneceu aberto. Outras vozes pediram a palavra.
O Pedro disse que ninguém volta ao que já não é.
A Zé disse que a culpa era do ADN.
O Sílvio lembrou que o coração da civilização era feito dos seus ancestrais.
A Leonor perguntou como podíamos ser animais da mesma raça e, ainda assim, viver em guerra.
O Edson falou de uma Angola onde há miséria, mas também fome de educação.
O Délcio disse que aquilo lhe dava vómito, mas que a verdadeira consequência era o óbito.
Houve quem refletisse sobre o privilégio do homem no oceano do desejo. Será que a sereia sabe dançar, ou aprendeu apenas a cantar porque lhe negaram todo o resto do corpo? As sereias cantam porque são obrigadas — o que lhes é permitido.
O Tomás disse que tinha dores nas costas.
O António cantou Lisboa.
A Gabriela confessou ser como qualquer outro sujeito: pura fantasia.
A Maria trocou correspondência com alguém na cadeia.
A Andréia escolheu não desistir de sonhar.
E assim continuámos, sem pressa, a espalhar sementes.
Começo agora a compreender o que poderá ser a Revolução Poetoterapêutica. Se a Revolução Neolítica nos ensinou a cultivar a terra para garantir a continuidade da vida, a poesia recorda-nos que também a experiência humana precisa de ser cultivada.
A agricultura foi uma tecnologia para cultivar a terra. A poesia poderá ser uma tecnologia para cultivar a experiência humana.
A palavra, quando partilhada, deixa de ser apenas linguagem para se tornar tecnologia de encontro, de memória e de transformação. O DUO Festival foi, para mim, um lugar de fertilidade onde a dor pôde tornar-se sentido, a diferença pôde tornar-se comunidade e a experiência individual florescer em experiência coletiva.
Tal como uma semente, um poema não germina no instante em que é lançado. Precisa de tempo, de escuta e de um terreno disponível.
Talvez seja por isso que escrevemos: para semear.
Cada palavra encontrará o seu tempo.
Paulo Pascoal
Ator, autor e curador, constrói uma obra onde a palavra se faz arquivo sensível, atravessada por deslocamentos, afetos e silêncios herdados. Entre diário, ensaio e performance, a sua escrita convoca o íntimo como território político, ativando narrativas dissidentes e temporalidades fragmentadas.
Fundador da plataforma Peaceful Nation e membro co-fundador da União Negra das Artes, a sua prática literária propõe outras formas de escuta, inscrição e permanência, onde a literatura se afirma como gesto de cuidado, resistência e reinvenção.
Dia 3 - 06/06_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Fazendo mediação, sem saber o que isso quer dizer :)
Ou seja: mediador é o que ou pessoa que serve de intermediário, promovendo o acordo entre partes em conflito e estabelecendo o diálogo; árbitro
Neste caso, o acordo vem da essência deste encontro, o conflito não tem esta morada,
eu aqui sou só uma espectadora!
Festival Duo, Maria Giulia Pinheiro, Fernando Kahombo e Filipe Homem Fonseca.
O lugar de encontro de todo o mundo e do mundo todo, SLAM, que acontece na Biblioteca de Alcântara, é um lugar de força, resiliência, daqueles que não pede por favor para fazer acontecer, existir. Esse é o lugar da Máju, a verdadeira mediadora da porra toda!
Ela sabe da urgência que há em criar espaços para a fala, para as "línguas portuguesas", tantas, várias e ostracizadas pelo acordo ortográfico.
A liberdade existe nestes encontros que nos são proporcionados e, para além do Slam, que já existe há sete anos, acontece agora noutro formato, o festival. Porque é difícil o slam entrar em lugares institucionais, mas a gente dá a volta, como sempre! Resiste, insiste e reinventa.
Este duo que aconteceu no dia 6 de junho, foi performático, bastante musical e, como não poderia deixar de ser, poético.
O Fernando Kahombo, apresentou Tera-spoken-pia. Falou, cantou, gemeu, gritou e emocionou.
Dividida em actos, personagens, todas ele, todas nós. Foi muito interessante puxar para o espaço público uma sessão de terapia. Expor os problemas, dúvidas existenciais e sociais de peito aberto.
É um lugar este que me provoca várias sensações; por achar que é valiosa, esta "nova" medicina da alma, é também aqui que acho muito perigoso a terapia passar a ser "vital" para todos. Da Tera-Spoken-Pia, veio-me à memória o simples encontro, o desabafo a uma mesma mesa. O lugar que todos habitamos dos nossos problemas e como lidamos com eles, neste agora.
Não sou contra a terapia, mas sou a favor de que não nos esqueçamos de que somos capazes também de nos "terapizar", sozinhos, com amigos, desconhecidos e até inimigos, sem de receitas médicas precisar. Obrigada, Fernando, pelo querer e verdade com que nos presenteaste naquela tarde de terapia artística; é bom arrepiar, chorar, rir em grupo, foi uma verdadeira terapia! Vida longa ao spoken do Kahombo!
Mais Vale cedo, que Sempre, Filipe Homem Fonseca. Homem com guitarra, loops esquecidos e todo ele literatura.
É privilégio ouvir do autor as suas próprias palavras, deixando de haver menos uma tradução. Corre no Filipe a vontade, que é sempre o mais importante de tudo, a grande humildade, a motivação que vem do lugar da construção.
É difícil escrever sobre um amigo, não quero nada aqui dizer que se esqueceu de tirar a barra do play do vídeo, (para a próxima já sabes, é só puxar a seta para fora do ecrã).
Foi uma performance de alguém que muito admiro que, de toda a sua imensa experiência na escrita, na escuta, na música, deixa sempre que o sentimento, a vulnerabilidade apareça, para assim não representar, mas de facto apresentar. Foi com muito humor que de assuntos de intervenção se trataram, é muito difícil falar de coisas tão complexas de uma maneira tão simples. É genial!
Da runião às supostas reuniões, do olhar da velha, das trends que comem tudo e não deixam nada, à simples razão de existir. É mesmo sem merdas que a poesia acontece e permanece na boca dos verdadeiros.
E no fim disto tudo, o abraço entre os dois artistas da tarde, correndo espaço para continuar, começar e inspirar.
Saravá Maju!
Patricia Relvas
Patricia Relvas é licenciada pela escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha em Design de Cerâmica e Vidro. Da modelação de matéria passa à modelação do som, começando a sua jornada ao serviço da música, num ambiente académico, em 2007 faz erasmus em Birmingham Institute of Creative Arts, e em 2009 muda-se para Berlim, onde inicia o projecto musical Lavoisier com Roberto Afonso. Em 2011 fundou a galeria e sala de concertos João Cocteau em Berlim, onde foi programadora até 2013. Em 2012 edita o seu primeiro trabalho fonográfico "lavoisier", recebe dois apoios do Instituto Camões para apresentações do projecto musical pela Alemanha, participando em colóquios sobre a língua portuguesa nas Universität Hamburg, Rostock e Heidelberg. Voltando para Portugal em 2014 edita o EP "De Eus para mim..." e o álbum "Projecto 675" gravados por José Fortes. Em 2015 participa em duas peças de teatro de João Garcia Miguel, compondo e interpretando nos Teatros Nacionais S. João e D. Maria II. Em 2018 colabora no disco do músico alemão Daniel Hacksmann “ With love from Berlin”, e no álbum do músico brasileiro Vinicius Terra “Para a Lusofonia nasce um novo dia”, participa na edição da Feira Literária Internacional de Paraty (FLIP). Em Novembro de 2019 apresenta o trabalho fonográfico “Viagem a um reino maravilhoso” Miguel Torga por Lavoisier. Realizou vários trabalhos de comunidade, coordenando e trabalhando com a Banda Filarmónica " Os Bazófias" e "Orquestra fantástica do futuro" alunos do conservatório de Vila Real. Em 2022 participa nos últimos concertos de Fausto Bordalo Dias, na apresentação dos 40 anos de "Por este Rio Acima" e apresenta "Aí" com lançamento no Teatro da Trindade, em 2023 lança o álbum estudo com as cantadeiras do Gerês, "Polifonias singulares Vol.I". Integra o projeto Cantares de Andarilho, que homenageia Zeca Afonso, desde 2024, e em 2025 apresenta "era com h" - A Musicalidade e o Gesto na Poesia Contemporânea. Desde então, conta com a participação em vários trabalhos fonográficos, sendo intérprete, compositora e produtora. Tem apresentado o seu trabalho em diversas destacáveis salas de espetáculos e festivais em Portugal, por toda a Europa e América do Sul.
Dia 2 - 09/05_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Manual para um Bom Festival por Gisela Casimiro
O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação.
Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes.
O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio.
O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.
O bom festival entende que curadoria não é decoração cultural. É responsabilidade estética e ética. O bom festival não se limita a acontecer num lugar, mas guarda lugar e coloca o nome na lista de quem a sociedade fez atrasar. A quem a sociedade fez perder a oportunidade de entrar e ficar. O bom festival é um lugar e é o lugar.
O bom festival não programa tendências, faz-se em parceria. Provoca e debate tensões, com amigos e desconhecidos. O bom festival sabe que a curadoria também é uma forma de escrita. Pois se até a candidatura o é. O bom festival é paciente, impaciente, diverso, é parceiro, é divertido e é compreensivo. O bom festival não usa a palavra comunidade trinta e sete vezes num dossier de imprensa para acabar deixando as pessoas sozinhas no sistema vigente ou na vida. O bom festival quer-se justo, musical, afectuoso, pungente, cru, e eloquente. Quer-se com muita gente boa dentro.
O bom festival sabe que uma cidade lê mais do que se pensa, por isso ocupa cafés, ruas, teatros, escadarias, muros e corredores. O bom festival sabe que a literatura não compete com a vida quotidiana: alimenta-se dela.
O bom festival cria uma geografia emocional temporária. Durante alguns dias, aprendemos a orientar-nos pela voz e pela energia das pessoas e não pelo GPS.
O bom festival é organizado e aprumado, partes iguais de modo voo e post instagramado. Mas deixa sempre uma porta entreaberta para o acaso. O bom festival é desorganizado. Influencia e é influenciado.
O bom festival protege o ritmo. Percebe que o excesso de eventos produz fadiga e não intensidade. O bom festival cria espaço para a demora. Para continuar uma conversa cá fora. Para falhar uma sessão e não sentir culpa. O bom festival não acelera a literatura para a tornar consumível.
O bom festival deixa espaço para o desconforto. Para a pausa demasiado longa. Para a voz que treme. Para o poema que falha, para o ego que incha, para a pilha do microfone em falta. O bom festival faz-nos voltar a escrever ao chegar a casa, ou pelo menos a imaginar desejar fazê-lo. Não podemos esquecer que o bom festival é sonhador e realista.
O bom festival sabe que uma programação demasiado perfeita costuma estar morta. O bom festival não precisa parecer importante para ser inesquecível. O bom festival não se parece com um funeral nem com uma candidatura a fundos europeus. Mas pode conter poemas escritos durante ou após um funeral. Pode ou não conter críticas a apoios culturais, nacionais ou internacionais.
Às vezes basta uma cadeira de plástico, um copo de vinho, ou três, e alguém a dizer uma frase impossível de esquecer. O bom festival tem bar aberto e petiscos. A sua duração pode ser meses ou dias, e cada momento é uma despedida que estamos a fazer há duas horas, sem sair do lugar, sem parar de conversar.
O bom festival percebe que hospitalidade também é curadoria. A forma como se recebe alguém altera profundamente o que essa pessoa será capaz de dizer em palco.
O bom festival sabe que hospitalidade é simpatia, é infraestrutura emocional, é surpreender e ser surpreendida. O bom festival cuida da luz, das cadeiras, do som, da água, dos intervalos, dos pagamentos, cuida de todos e deve cuidar de si mesmo. O bom festival suspira com orçamentos. O bom festival não trata artistas como conteúdo. O bom festival não transforma autores em monumentos. Devolve-lhes corpo, cansaço, hesitação e respiração.
O bom festival sabe que a oralidade é a tecnologia ancestral que nos garantirá um futuro. O bom festival não transforma a performance poética numa competição de intensidade. Nem tudo precisa ser gritado para ser político. O bom festival não pede aos artistas para explicarem o trabalho o tempo todo. O mistério também é uma forma de partilha.
O bom festival não separa público e artistas como se fossem espécies diferentes. O bom festival não trata o público como estatística, enquanto consumidor cultural em circulação contínua. O bom festival faz da escuta uma prática coletiva e intimista. O bom festival faz-nos sentir inteligentes sem nos fazer sentir pequenos. O bom festival não acontece apenas no palco.
O bom festival entende que o público também escreve o festival, muitas vezes de cor, de coração. Com chuva, cigarros partilhados, abandonos a meio das sessões e encontros que não estavam previstos na fila para a casa de banho.
O bom festival percebe que o mais importante raramente acontece durante a sessão principal. O bom festival é um presente e faz-se de presenças. O bom festival deixa rasto e pode deixar-nos de rastos. São as frases anotadas no telemóvel ou num recibo qualquer no fundo da carteira, abraços apertados ou os livros comprados por impulso. Um boi de lantejoulas, lenços e panos que dança à nossa volta e nos pede uma festa na cabeça, mesmo quando é ele quem nos abençoa. Palmas que se bate de pé. Flores e fotos que se partilham. Um batom vermelho, uma camisa colorida, brincos e colares com mensagens, uma tela improvisada, uma amizade sempre renovada.
O bom festival sabe acabar e sabe regressar. O bom festival dá muito trabalho, nunca o dá por terminado, e sabe que, da próxima, vai tentar melhorar. Por isso, merece o nosso agradecimento. Celebremos!
Gisela Casimiro
Gisela Casimiro é escritora e artista. Publicou Erosão, Giz e Estendais. Assinou as peças "Casa com Árvores Dentro" e "Vida: Uma Aplicação". É coargumentista da série Novas Narrativas de Caça. É cofundadora da UNA – União Negra das Artes.
Dia 1 - 02/05_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
desde a primeira linha
me pergunto como se forma uma comunidade
o sentimento de estarmos ligados aos que vieram antes e aos que virão depois
reunidos em volta do palco nesse ritual de comensalidade
partilhando sabores e saberes até todos, saciados, sabermos tudo
um grupo unido por características, valores, interesses comuns
um grupo perdido algum lugar entre família e formação de quadrilha
Gonçalo pintava como Manu e amava Maria que convidou Huba
que falou nos olhos de Dara que perdeu o medo dos insetos igual à Gabriella
que tem medo do que o futuro guarda tal qual Leonor
que está farta de ser gaja assim como Margarida
que dividiu o pódio com Edson, que por sua vez o partilhou com Felipe
que samba sua saudade
como ninguém
tecidos por essa linha misteriosa que nos une
aquela vozinha, aquela insistente ideia
que continuamente nos importuna: a Criatividade
se espalhando como bolor num vidro de geléia
dizem ser um dom mas às vezes parece mais um vício só que
eu hoje vou dormir e acordar apreciando a oportunidade de realizar o nosso ofício
um trabalho de formiguinhas, abelhas e outros operários afins
grilos cantando no silêncio, monstros em sala de aula
espalhando poesia até que se encontre em todos os lugares:
das páginas dos livros às vending machines
Gabriella Hedegaard
Gabriella Hedegaard é atriz, escritora e produtora, com origem de Dinamarca e Brasil. É graduada em Teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (2018) e tem em sua trajetória passagens pela escola de Teatro do Galpão Cine Horto, pelo curso de teatro na Ryslinge Efterskole e por festivais de teatro no Brasil, Dinamarca e Portugal. É professora de idiomas e arte-educadora, tendo integrado durante dois anos a equipe educativa do Centro Cultural Banco do Brasil-BH. Co-fundadora da Cia Quatro Quartos, onde atuou, dirigiu, escreveu e produziu entre 2017 e 2021. Produziu blocos de carnaval como Lavô, Tá Novo! e Abalô-caxi, em Belo Horizonte. Em Lisboa, criou o projeto PALAVRA EM AÇÃO - Ferramentas para um texto vivo, que já teve três edições coletivas, além de consultorias individuais. Atualmente, integra o Teatro do Imigrante como atriz, produtora e programadora. É campeã do poetry slam do Festival de Poesia de Lisboa 2023, e do Todo Mundo Slam 2024.