Aqui nossos mediadores convidados escrevem sobre os dias no Festival DUO - Poesia e Performance. Confira abaixo:
Dia 2 - 09/05_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
Manual para um Bom Festival por Gisela Casimiro
O bom festival existe. Começa no coração. Começa muito antes da programação.
Começa quando alguém decide reunir o mundo, por momentos, numa sala na biblioteca com vista para a ponte. O bom festival é elástico e estende-se no tempo. É lento, intenso e presente, faz pontes.
O bom festival não tem pressa. Sabe que a literatura demora e precisa de silêncio.
O bom festival não acumula nomes nem troféus, mas constrói uma linha de pensamento. Mesmo quando parece disperso, há uma pergunta invisível que liga tudo.
O bom festival entende que curadoria não é decoração cultural. É responsabilidade estética e ética. O bom festival não se limita a acontecer num lugar, mas guarda lugar e coloca o nome na lista de quem a sociedade fez atrasar. A quem a sociedade fez perder a oportunidade de entrar e ficar. O bom festival é um lugar e é o lugar.
O bom festival não programa tendências, faz-se em parceria. Provoca e debate tensões, com amigos e desconhecidos. O bom festival sabe que a curadoria também é uma forma de escrita. Pois se até a candidatura o é. O bom festival é paciente, impaciente, diverso, é parceiro, é divertido e é compreensivo. O bom festival não usa a palavra comunidade trinta e sete vezes num dossier de imprensa para acabar deixando as pessoas sozinhas no sistema vigente ou na vida. O bom festival quer-se justo, musical, afectuoso, pungente, cru, e eloquente. Quer-se com muita gente boa dentro.
O bom festival sabe que uma cidade lê mais do que se pensa, por isso ocupa cafés, ruas, teatros, escadarias, muros e corredores. O bom festival sabe que a literatura não compete com a vida quotidiana: alimenta-se dela.
O bom festival cria uma geografia emocional temporária. Durante alguns dias, aprendemos a orientar-nos pela voz e pela energia das pessoas e não pelo GPS.
O bom festival é organizado e aprumado, partes iguais de modo voo e post instagramado. Mas deixa sempre uma porta entreaberta para o acaso. O bom festival é desorganizado. Influencia e é influenciado.
O bom festival protege o ritmo. Percebe que o excesso de eventos produz fadiga e não intensidade. O bom festival cria espaço para a demora. Para continuar uma conversa cá fora. Para falhar uma sessão e não sentir culpa. O bom festival não acelera a literatura para a tornar consumível.
O bom festival deixa espaço para o desconforto. Para a pausa demasiado longa. Para a voz que treme. Para o poema que falha, para o ego que incha, para a pilha do microfone em falta. O bom festival faz-nos voltar a escrever ao chegar a casa, ou pelo menos a imaginar desejar fazê-lo. Não podemos esquecer que o bom festival é sonhador e realista.
O bom festival sabe que uma programação demasiado perfeita costuma estar morta. O bom festival não precisa parecer importante para ser inesquecível. O bom festival não se parece com um funeral nem com uma candidatura a fundos europeus. Mas pode conter poemas escritos durante ou após um funeral. Pode ou não conter críticas a apoios culturais, nacionais ou internacionais.
Às vezes basta uma cadeira de plástico, um copo de vinho, ou três, e alguém a dizer uma frase impossível de esquecer. O bom festival tem bar aberto e petiscos. A sua duração pode ser meses ou dias, e cada momento é uma despedida que estamos a fazer há duas horas, sem sair do lugar, sem parar de conversar.
O bom festival percebe que hospitalidade também é curadoria. A forma como se recebe alguém altera profundamente o que essa pessoa será capaz de dizer em palco.
O bom festival sabe que hospitalidade é simpatia, é infraestrutura emocional, é surpreender e ser surpreendida. O bom festival cuida da luz, das cadeiras, do som, da água, dos intervalos, dos pagamentos, cuida de todos e deve cuidar de si mesmo. O bom festival suspira com orçamentos. O bom festival não trata artistas como conteúdo. O bom festival não transforma autores em monumentos. Devolve-lhes corpo, cansaço, hesitação e respiração.
O bom festival sabe que a oralidade é a tecnologia ancestral que nos garantirá um futuro. O bom festival não transforma a performance poética numa competição de intensidade. Nem tudo precisa ser gritado para ser político. O bom festival não pede aos artistas para explicarem o trabalho o tempo todo. O mistério também é uma forma de partilha.
O bom festival não separa público e artistas como se fossem espécies diferentes. O bom festival não trata o público como estatística, enquanto consumidor cultural em circulação contínua. O bom festival faz da escuta uma prática coletiva e intimista. O bom festival faz-nos sentir inteligentes sem nos fazer sentir pequenos. O bom festival não acontece apenas no palco.
O bom festival entende que o público também escreve o festival, muitas vezes de cor, de coração. Com chuva, cigarros partilhados, abandonos a meio das sessões e encontros que não estavam previstos na fila para a casa de banho.
O bom festival percebe que o mais importante raramente acontece durante a sessão principal. O bom festival é um presente e faz-se de presenças. O bom festival deixa rasto e pode deixar-nos de rastos. São as frases anotadas no telemóvel ou num recibo qualquer no fundo da carteira, abraços apertados ou os livros comprados por impulso. Um boi de lantejoulas, lenços e panos que dança à nossa volta e nos pede uma festa na cabeça, mesmo quando é ele quem nos abençoa. Palmas que se bate de pé. Flores e fotos que se partilham. Um batom vermelho, uma camisa colorida, brincos e colares com mensagens, uma tela improvisada, uma amizade sempre renovada.
O bom festival sabe acabar e sabe regressar. O bom festival dá muito trabalho, nunca o dá por terminado, e sabe que, da próxima, vai tentar melhorar. Por isso, merece o nosso agradecimento. Celebremos!
Gisela Casimiro
Gisela Casimiro é escritora e artista. Publicou Erosão, Giz e Estendais. Assinou as peças "Casa com Árvores Dentro" e "Vida: Uma Aplicação". É coargumentista da série Novas Narrativas de Caça. É cofundadora da UNA – União Negra das Artes.
Dia 1 - 02/05_Obra de Gonçalo Antunes, Fotografia de Raquel Pimentel
desde a primeira linha
me pergunto como se forma uma comunidade
o sentimento de estarmos ligados aos que vieram antes e aos que virão depois
reunidos em volta do palco nesse ritual de comensalidade
partilhando sabores e saberes até todos, saciados, sabermos tudo
um grupo unido por características, valores, interesses comuns
um grupo perdido algum lugar entre família e formação de quadrilha
Gonçalo pintava como Manu e amava Maria que convidou Huba
que falou nos olhos de Dara que perdeu o medo dos insetos igual à Gabriella
que tem medo do que o futuro guarda tal qual Leonor
que está farta de ser gaja assim como Margarida
que dividiu o pódio com Edson, que por sua vez o partilhou com Felipe
que samba sua saudade
como ninguém
tecidos por essa linha misteriosa que nos une
aquela vozinha, aquela insistente ideia
que continuamente nos importuna: a Criatividade
se espalhando como bolor num vidro de geléia
dizem ser um dom mas às vezes parece mais um vício só que
eu hoje vou dormir e acordar apreciando a oportunidade de realizar o nosso ofício
um trabalho de formiguinhas, abelhas e outros operários afins
grilos cantando no silêncio, monstros em sala de aula
espalhando poesia até que se encontre em todos os lugares:
das páginas dos livros às vending machines
Gabriella Hedegaard
Gabriella Hedegaard é atriz, escritora e produtora, com origem de Dinamarca e Brasil. É graduada em Teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (2018) e tem em sua trajetória passagens pela escola de Teatro do Galpão Cine Horto, pelo curso de teatro na Ryslinge Efterskole e por festivais de teatro no Brasil, Dinamarca e Portugal. É professora de idiomas e arte-educadora, tendo integrado durante dois anos a equipe educativa do Centro Cultural Banco do Brasil-BH. Co-fundadora da Cia Quatro Quartos, onde atuou, dirigiu, escreveu e produziu entre 2017 e 2021. Produziu blocos de carnaval como Lavô, Tá Novo! e Abalô-caxi, em Belo Horizonte. Em Lisboa, criou o projeto PALAVRA EM AÇÃO - Ferramentas para um texto vivo, que já teve três edições coletivas, além de consultorias individuais. Atualmente, integra o Teatro do Imigrante como atriz, produtora e programadora. É campeã do poetry slam do Festival de Poesia de Lisboa 2023, e do Todo Mundo Slam 2024.